quinta-feira, 26 de maio de 2016

Livro: "VISÕES DA CABANAGEM" *

Para se somar aos esforços voltados à compreensão e entendimento do que foi o movimento de revolta popular que ocorreu na primeira metade do século XIX ( e que se origina na Província do Grão-Pará), ou seja, a CABANAGEM, a leitura do texto do profº José Ribamar Bessa Freire, abaixo transcrito ipsis litteris, é muitíssimo importante na medida em que serve como encaminhamento (e é seu prefácio) à leitura da obra do Profº Dr. Luís Balkar Sá Peixoto Pinheiro (professor titular do Curso de História da Universidade Federal do Amazonas - UFAM), "VISÕES DA CABANAGEM: UMA REVOLTA POPULAR E SUAS REPRESENTAÇÕES NA HISTORIOGRAFIA".

Enfim, o texto do Profº Bessa Freire deixa mais que evidente a necessária e obrigatória leitura de "VISÕES DA CABANAGEM". Restando-nos apenas cumprir esta prazerosa missão: fazer sua leitura.

Afinal, fazer esta leitura ultrapassa e vai pra além da obrigação acadêmica ou que seja pra outros fins. Pois, a leitura em si é um ato, sobretudo de libertação - em todos os sentidos.
Profº Dr. Luis Balkar Pinheiro ***
E Monteiro Lobato não nos deixa esquecer disto, quando afirma, em sua famosa frase que "Um país se faz com homens e livros".


A CABANAGEM, TANTAS VERSÕES**

(José R. Bessa Freire)

"Era janeiro de 1835. O tapuio Filipe, conhecido como Mãe da Chuva, deu um tiro no peito de José Joaquim da Silva Santiago. Outro tiro, disparado por Domingos, o Onça,  matou  Bernardo Lobo de Souza. A primeira vítima era o comandante de armas e a segunda, o presidente da Província do Pará.  Os corpos das duas maiores  autoridades da Amazônia foram arrastados para o alojamento dos índios remeiros – um grande galpão, em Belém. Lá, durante mais de oito horas, tapuios conhecidos por estranhos apelidos – Gigante do Fumo, Onça do Mato, Sapateiro, Remeiro - desfilaram, chutando os cadáveres e cuspindo neles. Muitos chegaram a mijar na cova, um buraco aberto no cemitério da igreja das Mercês. A cabanagem começava.

(...) O livro de Rosa do Espírito Santo Costa, professora do IEA, é uma cartilha, que trata os cabanos  - 'caboclos e pretos, moradores das beiras dos rios' -  como 'assassinos, salteadores e algozes . O outro livro, escrito pelo tenente-coronel, apresenta o brigadeiro Soares de Andréa, responsável pela repressão aos cabanos, como um homem “enérgico, disciplinador, decidido, competente e capaz como soldado e administrador'.

De um lado, a plebe ignara, a anarquia, a violência bestial, a barbárie. De outro, a ordem, a disciplina, a integridade, a civilização. Depois disso, foram feitos outros estudos sobre a Cabanagem, mais recentes ainda, com interpretações bastante diferenciadas, que mantinham no entanto idêntica postura maniqueísta,  invertendo apenas os papéis: quem antes era “mocinho” passou a ser 'vilão' e vice-versa. A luta dos cabanos, agora apresentados como heróis, transformou-se de ação de bandidos em um movimento de libertação nacional.
Vida dura - As Cabanas, do trabalho à guerra e o papel das mulheres

Afinal, por que existem versões tão diferentes sobre um momento crucial de nossa história? Qual dessas versões deve um professor do curso secundário ensinar hoje aos seus alunos? Ou existem alternativas que permitem uma abordagem mais objetiva do movimento?

O livro... -Visões da Cabanagem- tem o grande mérito de formular essas e outras perguntas e buscar respostas para elas, fazendo um balanço da produção historiográfica que tratou do tema. Seu autor, Luís Balkar Sá Peixoto Pinheiro, em vez de buscar  'a verdade', está preocupado em entender porque  tais 'verdades' foram construídas. Por isso, ele procura explicar o que é que sustenta versões tão diferentes, o que é que fundamenta enfoques tão diversos, situando o lugar social onde esses discursos históricos se produzem e reproduzem. Trata-se de um trabalho cuidadoso, que explora essa diversidade e procura compreender as diferentes imagens construídas sobre os cabanos, o que permanece e o que muda no discurso histórico sobre a cabanagem e o significado do movimento cabano de acordo com cada autor. Destaca o papel que esses autores atribuem à participação das camadas populares na revolta, discutindo as categorias de 'povo' e  'popular'.

Depois de visitar as abordagens historiográficas da cabanagem, de Ernesto Cruz (1942) até os estudos contemporâneos, Luis Balkar analisa vários 'compêndios de História Pátria' usados nas escolas desde o século passado, os relatos dos viajantes que passaram pela Amazônia e conviveram de perto com a cabanagem e, sobretudo, dedica uma atenção especial à obra matriz Motins Políticos de Domingos Antônio Raiol, o primeiro trabalho de peso sobre a Cabanagem, feito com rigor e seriedade (...).

Luis Balkar mostra, no entanto, que a geração de historiadores do século atual, pertencentes ao Instituto Histórico e Geográfico do Pará (IHGP), que começa a produzir a partir de 1936, também exclui os segmentos populares do movimento da cabanagem, pasteurizando a imagem dos cabanos, domesticando-os e esvaziando o movimento de seu conteúdo de crítica social. . O povo só vai ser descoberto através de algumas interpretações críticas como a de Caio Prado Júnior, que olha o movimento cabano sob a ótica da luta de classes, mas que não realiza nenhum trabalho de pesquisa documental, limitando-se a uma releitura teórica. Apesar disso - afirma Luis Balkar, - essas duas correntes revitalizaram a temática e contribuíram para que os cabanos deixassem de ser vistos como bandidos e assassinos."

**ACESSAR PRA LER O TEXTO NA ÍNTEGRA


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